2023, Música de Câmara
“Como se fosse um filho”
“Como se fosse um filho” é uma obra escrita para o Sond'Ar-te Trio e que surge como resposta ao desafio lançado pela Miso Music Portugal no contexto da exposição “A Guerra Guardada – Fotografias de Soldados Portugueses em Angola, Guiné e Moçambique (1961-74)”. Conjuntamente com a fotografia que aleatoriamente me foi atribuída, escuta-se o comovente relato de um ex-soldado que nos seus tempos em Moçambique conhece o Vítor. Não sendo certo o paradeiro de seu pai e tendo sido abandonado pela sua mãe que é alcoólica, Vítor é “adoptado” por este soldado português que lhe oferece o conforto, o amor e a segurança, como se de um filho se tratasse.
A obra divide-se em três secções muito claras que se baseiam em divisões formais contidas na própria história. “Vítor” é o andamento introdutório e debruça-se sobre a relação de pai e filho que existe, naturalmente, entre os dois protagonistas. O segundo quadro musical, “Dá licença, Capitão?”, procura realçar traços próprios da jovialidade e de uma certa energia infantil muito própria de Vítor que, de cada vez que entrava na messe para almoçar, fazendo sinal de continência, questionava o capitão se este lhe dava licença para se sentar. O terceiro e último andamento, “Despedida”, é uma sequência nostálgica, e de alguma forma meditativa, se quisermos, que se inspira no final, profundamente comovente, desta história.
“Como se fosse um filho” é uma peça que dedico ao Sond'Ar-te Trio e à Miso Music Portugal, uma das mais relevantes entidades na fomentação, divulgação e preservação da música contemporânea nacional.
(Pedro Lima, 2023)