2020, Percussão
“Three Questions from a Lover to a Saint”
Three Questions from a Lover to a Saint é uma obra que nasce de uma narrativa imaginária criada a partir da lenda de São Sebastião. Na história canónica da cultura religiosa, depois de amarrado a uma árvore, Sebastião terá sido brutalmente atacado com flechas tornando-se iminente e praticamente inevitável a sua morte. Contudo, de forma miraculosa, Sebastião sobrevive a este martírio e somente mais tarde volta a ser capturado, espancado até à morte e posteriormente decapitado.
Nesta peça, explorou-se esta provocadora e violenta narrativa partindo da perspectiva de uma personagem imaginária - o percussionista. É esta personagem que se depara com o corpo brutalmente ferido de Sebastião, amarrado a um tronco, e é também esta personagem interpretada pelo percussionista quem lhe retira as flechas do corpo. Three Questions from a Lover to a Saint foi escrita no contexto do projeto “Estudos Coreográficos para um Percussionista” e na belíssima coreografia de Mafalda Deville, o teclado do vibrafone encontrava-se repleto de baquetas espetadas por entre as lâminas. O percussionista, à medida que a peça avançava, ia retirando estas baquetas num paralelismo claro com a história narrada na parte de electrónica.
A peça divide-se em 3 secções muito claras, cada uma delas corresponde às flechas que o percussionista retira do corpo do santo e cada um desses blocos inicia-se com 3 diferentes questões:
- tu vivit? - estás vivo?
- fresne dolor - dói-te?
- qui fecit hoc? - quem fez isto?
No vibrafone, por sua vez, há uma “questão musical” que se estende a cada repetição criando um discurso cada vez mais fluído e intenso; quase como se esta “pergunta” (ou será resposta?) se tornasse cada vez maior e mais expansiva à medida que o santo é libertado destas flechas que lhe atravessam o corpo.
O texto que escutamos na parte da eletrónica, escrito por Gareth Mattey e gravado pela voz do Crispin Lord, é uma textura poética que existe em forma de monólogo. A música que escrevi procura criar um íntimo diálogo com a parte eletrónica e também colorir um campo emocional que evidencia a fragilidade, a delicadeza mas também a violência de toda esta história.
(Pedro Lima, 2023)